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Filhos adulterinos (Parte 1)

Filhos adulterinos é uma expressão antiga, utilizada no primeiro Código Civil Brasileiro, para se referir aos filhos que nasciam resultado de um relacionamento extraconjugal, ou seja, adúltero.

Face ao grande e incontrolável número de crianças que nasceram nessa condição, algo que foi se tornando, a cada dia, mais comum na sociedade, que a expressão foi entrando em desuso até desaparecer de vez.

Como disse, é muito comum hoje em dia encontrarmos irmãos de pai ou de mãe diferentes. Os filhos tornam-se vítimas da irresponsabilidade dos seus pais, porque nascem e crescem em uma sociedade desajustada de famílias múltiplas e esfaceladas.

DEUS criou a família como resultado de uma união carnal, em primeiro casamento (deixar a casa do pai e da mãe), de um homem e de uma mulher para crescerem juntos dentro de um lar, serem abençoados, prosperarem, enfrentarem juntos todas as dificuldades, gerarem filhos, e os educarem dentro de preceitos morais e espirituais bíblicos. E, assim, esses filhos também crescerem, casarem-se com novas pessoas e difundirem tais valores para futuras gerações.

Mas a realidade que encontramos hoje é bem diferente daquela criada pelo SENHOR: filhos que crescem dentro de um lar adúltero (união resultante do repúdio e/ou do divórcio) ou dentro de uma casa onde inexista cotidianamente a presença do pai ou da mãe.

A Bíblia traz alguns episódios semelhantes ao retrato familiar da geração atual. A trajetória familiar do rei Davi é uma das mais conhecidas. Alguns teólogos atestam que ele nasceu fruto de um relacionamento adúltero do seu pai, Jessé, com uma prostituta, visto que a diferença de idade dele (Davi) para os demais irmãos era enorme, além de, à época de Saul, Jessé já ser de avançada idade (“E Davi era filho de um homem efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé, que tinha oito filhos; e nos dias de Saul era este homem já velho e adiantado em idade entre os homens” – 1 Samuel 17:12). Isso também pode ser comprovado na repulsa com que os primeiros filhos de Jessé o tratavam. Não podemos nem afirmar, com cem por cento de certeza, nem descartar, que os primeiros filhos de Jessé possivelmente também tenham nascido frutos de adultério do seu pai com várias mulheres. Mas podemos assegurar, com toda certeza, que a época em que Davi fora escolhido rei pelo SENHOR, sua mãe (que não é mencionada na Bíblia, mas alguns supõem ter sido uma prostituta) já era morta. Davi admite no Salmo 51 ter nascido fruto do pecado dos seus pais: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51:5). Davi, diferentemente dos seus irmãos, não era convidado para as melhores festas. Quando Samuel esteve em sua casa para escolher, a mando de DEUS, o rei que sucederia a Saul, todos os primeiros filhos foram apresentados, com exceção de Davi, que estava no campo, trabalhando na agricultura e cuidando de ovelhas. Ao findar a apresentação de todos os primeiros filhos, o próprio Jessé se surpreendeu quando Samuel disse, por revelação do Espírito Santo, de que deveria haver outro (“Acabaram-se os moços?...” - 1 Samuel 16:11). Não poderia um filho adulterino, que vivia em trabalho duro no pasto, ser escolhido para rei sobre a nação de Israel. Mas foi. O SENHOR ungiu a Davi, escolheu-o dentro de uma família desajustada, de origem estranha, para, por meio dele, vir toda a linhagem espiritual dos que, um dia, iriam ser alcançados pela Sua Graça e herdar o Seu Reino. DEUS não só conserta o homem como endireita todas as suas veredas. É de autoria de Davi o seguinte clamor: “Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome” (Salmo 23:3). Os pensamentos do SENHOR não são os nossos pensamentos. Nem os critérios de DEUS os nossos critérios. DEUS tem critérios perfeitos, que não cabe ao homem questionar; apenas aceitar. Certamente, se aquela escolha, ocorrida dentro da casa de Jessé, estivesse sob o encargo de qualquer outro ser humano, este jamais escolheria um jovem como Davi para ser rei do seu povo.

Davi nasceu dentre de uma  “gene” familiar desajustada e, mesmo quando foi escolhido para suceder Saul, conviveu, dentro do palácio, com uma esfera espiritual diabólica (de pecados, orgias, idolatria, mentira). Afinal, de quais ventres nasceram alguns dos filhos de Saul, como Merabe, Mical e Jônatas? Seriam da mesma mãe? Pelo caráter prostituído de Saul, podemos deduzir que não. Atente que a família de Saul, em si, já era completamente desajustada: Merabe, que era para ser a primeira esposa de Davi, foi dada a um meolatita. Davi aceitou receber a Mical como sua primeira esposa que, mais tarde, enganou o próprio pai para livrar o marido das mãos dele. Jônatas adiante também fez uma aliança com Davi, ficando do lado oposto do pai.
Davi inicia o seu reinado em Judá já repudiado de Mical e com duas novas mulheres: “E subiu Davi para lá, e também as suas duas mulheres, Ainoã, a jizreelita, e Abigail, a mulher de Nabal, o carmelita” (2 Samuel 2:2). Aos poucos, o próprio Davi foi se contaminando com os pecados sexuais dos que andavam a sua volta. Com Ainoã, nasceu o seu primeiro filho, Amnom. O seu segundo, Quileabe, com Abigail. E ainda muitos outros de mulheres diferentes: Absalão nasceu fruto da relação sexual que Davi teve com Maaca, filha de Talmai, rei de Gesur; Adonias, filho de Davi com Hagite; Sefatias, filho com Abital; e Itreão, filho de sua relação com Eglá. Esses foram os filhos que nasceram em Hebrom. Mas muitos outros ainda iriam nascer com outras mulheres e em outros lugares. Depois que é constituído rei sobre Israel, muitos outros filhos adulterinos seus nasceram em Jerusalém: “E tomou Davi mais concubinas e mulheres de Jerusalém, depois que viera de Hebrom; e nasceram a Davi mais filhos e filhas. E estes são os nomes dos que lhe nasceram em Jerusalém: Samua e Sobabe, e Natã e Salomão, e Ibar, e Elisua, e Nefegue, e Jafia, e Elisama, e Eliada, e Elifelete” (2 Samuel 5:13-16). Davi, por muito tempo, deixou um profundo rastro de tristeza em muitas famílias. Ele foi rei sobre duas nações (Judá e Israel) que haviam se afastado dos mandamentos de DEUS e adulterado com a idolatria e prostituição das nações pagãs. O livro de Jeremias, em todo o capítulo 3, mostra com clareza o véu do adultério espiritual e físico com que se envolveram essas duas nações. Também o casamento simbólico de Oséias testifica o quão estavam apodrecidas essas nações.

Mesmo depois de vencer muitas batalhas contra os inimigos, o ungido de DEUS, Davi, ainda encontrou oportunidade de cometer mais um adultério, este seguido de morte. Em uma tarde, avista do terraço da casa real a uma mulher que estava se lavando, muito formosa à vista. Chamou os seus conservos e perguntou-lhes de quem se tratava. Todos foram unânimes em dizer que aquela mulher era esposa do chefe da guarda dele, Urias: “...Porventura não é esta Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu?” (2 Samuel 11:3). Ou seja, Davi cometeu o pecado conscientemente. Agora, Davi, no mínimo, causa mal a mais duas famílias: a de Eliã e a de Urias. Em primeiro momento, com Urias ainda vivo, Bate-Seba engravida de Davi. Com sete de dias, a criança morreu. Depois que Urias foi morto, Bate-Seba volta a engravidar, e desta feita, nasce Salomão: “Então consolou Davi a Bate-Seba, sua mulher, e entrou a ela, e se deitou com ela, e ela deu à luz um filho, e deu-lhe o nome de Salomão; e o SENHOR o amou”(2 Samuel 12:24). É curioso afirmar que, dentre todos os filhos de Davi com inúmeras mulheres, Salomão fora o único que recebeu declaradamente o amor do SENHOR. Por que terá sido? Ora, Urias já era morto, portanto, Bate-Seba viúva. Davi também era viúvo do primeiro casamento, com Mical, filha de Saul, que havia sido morta tempos antes sem gerar filhos (2 Samuel 6:23). Todos os outros relacionamentos que Davi tivera entre Mical e Bate-Seba, nenhum foi considerado casamento por DEUS, visto que as mulheres traíram seus maridos e considerando que Mical ainda estava viva. O que o apóstolo Paulo veio a escrever, muitos séculos depois, sobre casamento, foi inspirado nas Escrituras Antigas e na doutrina perfeita do SENHOR e era do conhecimento de Davi: “Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” (Romanos 7:2-3). Davi conhecia bem essa verdade. A diferença entre Paulo e Davi foi o meio onde ambos se estabeleceram como líderes e, sobretudo, homens: Davi, no meio de uma realidade abominável; Paulo, instruído pelo santo Gamaliel e doutrinado diretamente por DEUS em um arrebatamento espiritual. Os da época de Davi se permitiam deliberadamente à prostituição (porque a Lei os conduzia a isso), enquanto que os da geração de Paulo preferiram concluir: “Se essa é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar” (Mateus 19:10).

Embora a história bíblica registre os nomes dos filhos adulterinos de Davi e sua consequente triste trajetória familiar, nenhum deles é lembrado com glamour nem ocupa feitos extraordinários nas páginas das Sagradas Escrituras. Ao contrário, quando são lembrados, é por vingança, morte, traição, incesto e coisas parecidas, como os de Amnom com Tamar, em 2 Samuel, capítulo 13; e a rebelião e morte de Absalão. DEUS havia dito que a espada nunca mais se apartaria de sua casa. E, de fato, cumpriu. Ao contrário, no Novo Testamento não vemos episódios de desestruturação familiar (o máximo que lemos é sobre a enfermidade da sogra de Pedro) nem escândalos parecidos com os de Davi envolverem os apóstolos e líderes das igrejas primitivas, visto que eles tinham o testemunho saído do fôlego do SENHOR JESUS de quanto o casamento é importante para DEUS, assim como a submissão das esposas, o amor do marido por elas e a educação dos filhos no temor do SENHOR.
É muito triste crianças nascerem e crescerem sabendo que os seus pais não podem ser marido e esposa licitamente aos olhos de DEUS, viverem como casados, repito, segundo a doutrina do SENHOR. É igualmente triste elas saberem que possuem outros irmãos em outras casas; irmãos apenas da parte de mãe ou de pai. Isso representa a desestruturação familiar e produz raízes terríveis em uma sociedade desacreditada, sem valores e sem paz.

Os filhos adulterinos precisam ser amados por seus pais, ainda que eles vivam separados. A eles, no tempo do entendimento, será necessário esclarecer toda a Verdade (se os pais, no futuro, tiverem sido verdadeiramente transformados pelo Espírito de DEUS). Porque é bem melhor pegar o que nasceu dentro de uma biografia tortuosa e consertar a tempo do que deixar florescer galhos apodrecidos, sem sustentação alguma, em futuros lares.
Conheço filhos adulterinos que cresceram sob a luz da Verdade. Por isso, tornaram-se cidadãos e cidadãs saudáveis (tanto espiritualmente como emocionalmente) e estão preparados para construírem, no futuro, uma história familiar muito mais digna e exemplar em relação àquela que os seus pais construíram sob a égide do pecado e da desobediência.
Que DEUS nos abençoe!

ESTUDO ELABORADO PELO  PASTOR  FERNANDO CÉSAR 

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