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O mau uso do Evangelho (Explicando Mateus 19:9)

Só existe um único versículo nos Evangelhos, motivo da grande discórdia e dos debates calorosos entre divorcistas declarados, divorcistas camuflados e antidivorcistas autênticos, sobre o tema “recasamento de pessoas divorciadas”, à luz da Palavra de DEUS: Mateus 19:9.

Digo um único texto, porque ele aparece, no próprio Evangelho de Mateus, duas vezes, com a mesma ordem das palavras:

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, NÃO SENDO POR CAUSA DE FORNICAÇÃO, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério” (Mateus 5:32; 19:9).

Acredito que se não existisse o referido texto, com a suposta cláusula de exceção, o assunto em destaque seria consenso entre os líderes religiosos católicos e protestantes. Mas ele está impresso em todas as Bíblias do mundo e, por isso, precisa ser explicado com coerência, responsabilidade, respeitando todo o pensamento do SENHOR sobre o tema.

Existem mais de 30 versões da Bíblia traduzidas em língua portuguesa, a maioria delas publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Dependendo da versão utilizada, a expressão, em destaque, assume termos diferentes, além do supracitado: “não sendo por causa de relações sexuais ilícitas”; “não sendo por causa de prostituição”; “não sendo por causa de imoralidade sexual”; “não sendo por causa de adultério. Uma das poucas casas publicadoras da Bíblia Sagrada, em língua portuguesa, que utiliza uma versão inspirada no Texto Original, é a Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. Ainda, assim, ela não é 100% perfeita no sentido de tradução do grego para a língua portuguesa. Digamos que, comparando-a com as demais, ela é a que provoca menor perigo.

O termo original grego, língua utilizada em Mateus, é PORNEIA que, traduzido em língua portuguesa em sentido literal, significa FORNICAÇÃO. Alguns estudiosos veem, na interpretação desse termo, a expansão do seu significado para os demais transcritos no parágrafo anterior. Essa consideração leva-os a entender que um casamento pode ser desfeito quando um dos cônjuges comete algum desses pecados sexuais: adultério, prostituição, imoralidade sexual, relações sexuais ilícitas; e, assim, a parte ofendida está livre para o divórcio e contrair um novo casamento. Mas qual o problema em expandir o significado de PORNEIA para essas demais significações? Qual a verdadeira interpretação de Mateus 19:9, considerando todos os conselhos do SENHOR para o casamento?

Sabemos que nem tudo o que está publicado na Bíblia veio como transcrição fiel dos textos originais. Muitos textos, de forma total ou parcial, foram acrescentados por homens, ao longo do tempo, por interesses diversos (religioso, econômico, político etc.). Isso é fato consumado e indiscutível entre as diversas correntes da Teologia. Nas Bíblias mais antigas, as expressões acrescentadas apareciam separadas das originais por meio de um símbolo gráfico (geralmente um hífen ou colchetes). É óbvio que muitos desses acréscimos não alteraram em nada os pensamentos do SENHOR para a humanidade (muitos até facilitaram a compreensão do versículo lido em seu contexto). Outros, no entanto, trouxeram graves prejuízos aos leitores. A tentativa de adaptar a linguagem bíblica original à modernidade para que muitos a compreendessem melhor e, dessa forma, se sentissem atraídos para o cristianismo, não passou de pura astúcia da criatividade humana, recurso leviano. O próprio JESUS afirmou que quando o Consolador vier, “convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo” (João 16:8). Se o Espírito Santo não chegar antes e convencer o homem, de nada adiantará o esforço humano para atingir esse fim. O texto de Mateus, em discussão, fora um dos mais atingidos pela malignidade humana.

Nas Bíblias mais antigas, ele aparecia da seguinte maneira: “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar a sua mulher e casar com outra comete adultério”. Em seguida, acrescentaram a suposta cláusula de exceção: “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar a sua mulher e casar com outra, NÃO SENDO POR CAUSA DE FORNICAÇÃO, comete adultério”. E o texto foi crescendo. Depois passou a ser publicado da seguinte maneira: “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar a sua mulher e casar com outra, NÃO SENDO POR CAUSA DE FORNICAÇÃO, comete adultério [e o que casar com a repudiada pelo marido comete adultério também]”. Finalmente o versículo assumiu a maneira com o lemos hoje, sem nenhum símbolo gráfico e com diversas variações de significado do termo PORNEIA. O acréscimo da expressão“e o que casar com a repudiada pelo marido comete adultério também” surgiu por conta do Evangelho de Lucas (capítulo 16, versículo 18), um dos que inspiraram o livro do evangelista Mateus; e entre os Evangelhos um dos mais antigos e fiéis às Escrituras originais.

Vamos comparar agora como o texto de Mateus 19:9 aparece nos demais Evangelhos:

“E ele lhes disse: Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12);

“Qualquer que deixa sua mulher, e casa com outra, adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido, adultera também” (Lucas 16:18).

O Evangelho de João não transcreveu em nenhum momento essa passagem. Porém, ele é o único que apresenta a passagem de uma mulher que foi pega em flagrante adultério pelos fariseus, que a levaram à presença de JESUS, com a finalidade de apedrejá-la; e o perdão de JESUS para aquela pobre mulher (João 8:3-11).  A passagem nos mostra a possibilidade de perdão para uma pessoa adúltera; que o pecado do adultério não poderia mais ser visto como os antigos viam: a sentença de morte por apedrejamento (Levítico 20:10). Também o Evangelho de João é o único que apresenta o milagre de JESUS em um casamento na Caná da Galiléia (João 2). Ou seja, de certa forma, o livro do evangelista João completa o conjunto doutrinário do SENHOR dos três evangelhos anteriores, no sentido de mostrar o poder de DEUS sobre um casamento e as suas misericórdias sobre uma pessoa adúltera (desde que ela se arrependa e abandone o pecado). Os pecados são os mesmos. A diferença, no tempo da Graça, está no resultado de quem peca, arrepende-se e abandona o pecado. A Graça conduz o arrependido à presença de DEUS.

É, no mínimo, estranho os livros dos evangelistas Marcos e Lucas terem se “esquecido” de uma informação tão importante e imprescindível sobre o tema casamento como a suposta cláusula de exceção, considerando que esses dois Evangelhos são bem mais antigos que o de Mateus, que, na verdade, é uma compilação deles. Alguns teólogos dizem que a suposta cláusula só apareceu no Evangelho de Mateus devido ao interesse do destinatário. O que Mateus fora escrito para os judeus; o de Marcos fora para os romanos; enquanto o de Lucas, para os gregos. Tal hipótese é frágil demais, visto que o tema casamento era e é de interesse geral, que o SENHOR não fizera o casamento apenas para determinada comunidade (israelitas e judeus), mas para toda a humanidade, embora, saibamos, que só os cristãos verdadeiros irão crer na Sua doutrina. Todos, e principalmente os demais, deveriam (e ainda hoje devem) conhecer o conjunto doutrinário do Reino do PAI. O casamento, criado por DEUS, no Éden, independe da raça, religião e nacionalidade dos envolvidos. É claro que uma convivência conjugal, construída longe dos conselhos de DEUS, tende a se destruir, confirmando a degradação espiritual dos cônjuges envolvidos.

A diferença do que está em Mateus, Marcos e Lucas não passa apenas pela existência ou não da suposta cláusula de exceção. Marcos cita a consequência para quem toma a iniciativa de repudiar o seu cônjuge. Lucas vai um pouco mais adiante. Afirma que o homem que se envolver sexualmente com a esposa repudiada pelo marido dela, se tornará adúltero também com ela.

E por que os tradutores erraram ao expandir o significado de PORNEIA, em Mateus 19:9? Embora, em outras passagens, esse termo grego possa ser substituído pelas demais significações, sem prejuízo do sentido e do conselho doutrinário do SENHOR, como, por exemplo, em 1 Coríntios 7:2 (“Mas, por causa de PORNEIA, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido”), em Mateus e em algumas outras passagens do Novo Testamento essa ampliação do significado pode conduzir um leitor incauto ao inferno. Em Coríntios até podemos substituir aqui o termo grego tanto pela palavra FORNICAÇÃO como pelo termo PROSTIUIÇÃO, sem prejuízo algum. Já em Mateus essa mudança é equivocada e perigosa. Não só em Mateus 19:9, como também em João 8:41, quando os fariseus e escribas estavam a blasfemar contra JESUS: “(...) Disseram-lhe, pois: Nós não somos nascidos de FORNICAÇÃO; temos um Pai, que é Deus”. Nessa passagem, os fariseus acusavam JESUS de ter nascido resultado da fornicação de Maria com outro homem. Maria ainda não havia casado com José. Eram noivos. O próprio José, quando desconfiou de que a sua noiva havia mantido relação sexual ilícita com outro homem (ou seja, o traído antes mesmo da consolidação do casamento), intentou abandoná-la (porque pela Lei, noivos traídos poderiam tomar essa atitude). Maria, na concepção de José, havia fornicado (entenda-se por fornicação a relação sexual ilícita entre pessoas solteiras ou viúvas, sem passarem pelo casamento). Antes que ele cometesse grande injustiça contra aquela que era bem-aventurada aos olhos de DEUS, o SENHOR enviou um anjo e o demoveu dessa ideia maligna e humana que havia se apoderado do pensamento dele: “E, projetando ele isto em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo” (Mateus 1:20). Sabe-se que, após essa revelação e do nascimento de JESUS, José e Maria de casaram e chegaram a ter outros filhos, frutos de uma relação sexual lícita.

Considerando que a suposta cláusula de exceção em Mateus havia mesmo existido e dito pelo SENHOR, ela jamais poderia ter o seu significado expandido para, por exemplo, adultério. Além de esse termo aparecer no mesmo versículo de Mateus, ele, já época, possuía um termo grego específico: MOICHEIA. Além do que as duas palavras aparecem juntas em outros textos do Novo Testamento: “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, ADULTÉRIOS, FORNICAÇÃO, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mateus 15:19); “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: ADULTÉRIO, FORNICAÇÃO, impureza, lascívia” (Gálatas 5:19). Se PORNEIA valesse também para adultério, é óbvio que nem Mateus nem Paulo os teriam transcritos duas vezes em um mesmo versículo. Essa é uma prova clara e inequívoca que nem sempre é possível e correto substituir o termo grego PORNEIA, de significado puramente restrito em Mateus, para outros significados como muitos fazem. Dizer que PORNEIA, em Mateus, pode ser expansivo para ADULTÉRIO, além de ser uma inverdade, conduz uma pessoa traída pelo seu cônjuge à possibilidade de obter um divórcio e mais na frente um novo casamento com outra pessoa. Trata-se, dessa forma, de um conselho nocivo, maligno e destruidor.

Adultério e fornicação são exemplos de relações sexuais ilícitas. Mas não são os únicos. O sexo anal, oral (não transcritos na Bíblia como lícitos), a zoofilia, o sexo entre parentes de primeiro e segundo grau, também são outros exemplos de relações ilícitas. E o texto em Mateus 5:32 e 19:9 não se refere a nenhum desses, embora, saibamos que tratam de formas sexuais contrárias à vontade de DEUS. Traduzir PORNEIA como RELAÇÕES SEXUAIS ILÍCITAS é perigoso porque teríamos que incluir, como outras causas para o fim de um casamento, todos os tipos de relação sexual ilícita existentes. Ou seja, qualquer marido que quisesse acabar um casamento, bastaria induzir a sua esposa para a prática do sexo anal e, depois utilizar o texto em Mateus como justificativa para o divórcio e um novo casamento. O mesmo raciocínio é válido para a expressão IMORALIDADE SEXUAL. Se pensarmos que certas expressões ditas na cama, no momento do ato sexual, entre um casal, são imorais, então nenhum casamento mais subsistiria mediante à Lei Sagrada.

A Bíblia é clara quando diz que o ÚNICO motivo que desfaz um primeiro casamento é a morte (Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:39). JESUS disse que “não separe o homem aquilo que Deus ajuntou” (Mateus 19:6). O casamento é comparado à relação de JESUS com a sua Igreja (Efésios 5, a partir do versículo 21). Se a igreja adultera contra ELE, o SENHOR diz: “(...) Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas ainda assim, torna para mim” (Jeremias 3:1). O sentido das misericórdias do SENHOR nunca foi o de separar os casais e oferecer a eles uma nova opção, mas o de reconciliá-los e restaurá-los.

O mau uso do Evangelho, com finalidades espúrias, de agradar a si mesmo ou de encontrar uma solução mais simples e fácil para um agravante no casamento, tem levado milhares, dentro dos templos religiosos, a cumprir a vontade do diabo e seus demônios. O caminho da renúncia quase sempre é o mais difícil de viver e o menos ensinado em muitas denominações religiosas, infelizmente. A coerência do bom uso do Evangelho ocorre quando o próprio leitor, ofendido pela traição e pelo repúdio do seu cônjuge, gostaria de seguir um novo caminho, uma busca pela felicidade pessoal; mas não o faz porque sabe que tal atitude desagradaria e muito ao SENHOR; e ele próprio termina se convencendo do caminho mais difícil e estreito, mas da santidade.

Assim como no cenário da mulher adúltera em João, JESUS permanece sentado, em silêncio, observando tudo, e esperando o olhar de arrependimento dos que se dizem seus filhos, mas ainda vivem escravizados no segundo e terceiro “casamento” (após uma separação e divórcio). Quem O buscar verdadeiramente arrependido e disposto a cumprir a Sua vontade, encontrará, à disposição eterna, os braços de AMOR e de compaixão.

Que DEUS nos abençoe!

ESTUDO ELABORADO PELO  PASTOR  FERNANDO CÉSAR 

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